O bufão
Levava uma vida divertida e, paralelamente, divertia uma platéia de párias com a sua “mágica”. Ora era Hamlet, Dom Quixote, Madame Bovary, Romeu e Julieta, Peri, etc. Para as crianças adorava ser Teleco, O Coelhinho e, encerrando o espetáculo, virava Getúlio Vargas suicidando-se, deixando comovidos os espectadores mais idosos.
Apesar do tom lúdico da sua metamorfose, uma certa crise existencial rondava Florêncio, pois ele tinha dúvidas a respeito da sua própria identidade e tampouco se lembrava do seu caráter. Amargurou-se com o passar do tempo, mas continuava a divertir o povo.
Tragicamente, ao final de um espetáculo de Natal, O Camaleão, encarnando Getúlio, detonou um tiro de verdade no peito e pôs um fim à sua agonia. A platéia, tomada pela comoção já peculiar, aplaudiu de pé o “realismo” da cena.
Florêncio Bueñaventura, morto, parecia ser apenas mais uma das suas próprias facetas.

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