Mormaço
Eu nunca gostei de matar répteis. Aliás, acho que em toda a minha vida nunca cheguei a ter que matar algum.
Os grandes lagartos que surgiam famintos, após vários meses de hibernação, sempre provocaram a minha curiosidade e nunca o meu ódio.
Mesmo quando devoravam algum pinto, ou os ovos que as galinhas punham, displicentemente, em diversos pontos do imenso quintal.
Ao contrário, eu achava graça e admirava o seu poder de realizar tais incursões tão silenciosamente que quase beiravam ao sobrenatural.
Jamais pensei em dar um fim neles.
Preferia apenas observa-los em sua letargia por volta das três da tarde, sob um forte sol de verão.
E olhando aqueles lagartos impassíveis e imóveis, mas atentos a qualquer ruído ou a um gesto mais brusco, eu parecia realizar uma pequena investigação sobre os mistérios da natureza selvagem.
Descobri que os répteis me provocavam um sentimento estranho de cumplicidade e um estranho sabor agridoce na boca.
A minha descoberta ocorreu numa tarde de mormaço e coincidiu com o repentino endurecimento da minha pele e o surgimento de um pequeno e inexplicável apêndice na altura das minhas nádegas.

1 Comments:
Magela, vc vai virar réptil!! Eu já matei réptil! Lagartixa é réptil!
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