Brutalidade Jardim

Blog de literatura, prosas urbanas, poéticas visuais e literatices

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Location: João Monlevade / Brasília, Minas / Distrito Federal, Brazil

Nascido em João Monlevade, no Vale do Aço, Minas Gerais / Brasil. É jornalista. Reside em Brasília/DF desde 2007. Poeta independente abandonou a literatura impressa para mergulhar no abismo virtual. Tem trabalhos literários premiados no Brasil e muitos outros publicados em vários países, especialmente de arte postal. Seguir o meu twitter @ geraldomagela59 Born in João Monlevade, in the Steel Valley, Minas Gerais / Brazil. He is a journalist, living in Brasília / DF since 2007. Independent poet abandoned printed literature to immerse himself in the virtual abyss. It has literary works in Brazil and many others published in several countries, especially in publications of postall art.

Monday, July 17, 2006

Féretro

Detesto ler anúncio de falecimento. Eu estava solitário no estúdio da emissora numa tarde de domingo, fazendo o programa de rádio mais tedioso da minha vida e havia acabado de tocar uma porcaria internacional. Coloquei no ar os comerciais. Foi quando ela apareceu. Estava de preto e tinha um lenço branco nas mãos. Era uma morena elegante, alta. Usava um vestido meio justo. Não reparei muito no seu rosto, a não ser nas olheiras, mas o corpo até que era bem interessante. Meio sensual, para uma espécie de viúva ainda fresca. Ela me entregou um papel amassado e balbuciou, chorosa:
Por favor, eu quero divulgar esta nota de falecimento.
Olhei para o manuscrito:
“A família de Hederaldo Gabriel Santos comunica o seu falecimento ocorrido na manhã de hoje e convida para o seu sepultamento às 17 horas, saindo o féretro da rua...”
Detesto a palavra féretro, eu disse, interrompendo, sem olhar para a possível viúva.
Eu também, mas é praxe, ela respondeu.
Praxe? Pô, até que ela tem uma linguagem legal, pensei.
Continuei a ler o resto do texto:
“Comunicamos o falecimento de Hederaldo Gabriel dos Santos, conhecido como Aldo Garanhão...”
Garanhão?
Ele era mais conhecido pelo apelido, disse ela, contendo um riso curto.
O tom da sua voz era um tanto malicioso para uma viúva nova.
Era seu marido?
Mais ou menos, respondeu, novamente com a voz maliciosa.
Tudo bem, eu vou fazer a leitura da primeira chamada agora mesmo.
Eu posso ficar aqui dentro, ouvindo?
Claro, não tem problema.
Na hora certa comecei a ler o texto com voz comedida e séria como convém em anúncios de falecimento. Apenas diminui o tom na palavra féretro que, particularmente, eu detesto. Ela choramingou, baixinho, durante a leitura.
Acabei de ler a mensagem e coloquei um samba do Zeca Pagodinho. Ela saiu do estúdio, enxugando lágrimas quase invisíveis, depois de despedir-se educadamente.
O senhor poderia ler mais uma cinco vezes hoje? Amanhã eu acerto o valor na secretaria da rádio.
Tive a impressão de que ela saiu rebolando a sua bela bunda, como se estivesse acompanhando, discretamente, o ritmo delicioso do samba. O tédio de um domingo faz a gente imaginar coisas.
Cinco vezes?
Pô, féretro é uma palavra desgraçada.

1 Comments:

Blogger Thiago Moreira Gonçalves said...

Emfim um POST!

7:05 AM  

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