Féretro
Por favor, eu quero divulgar esta nota de falecimento.
Olhei para o manuscrito:
“A família de Hederaldo Gabriel Santos comunica o seu falecimento ocorrido na manhã de hoje e convida para o seu sepultamento às 17 horas, saindo o féretro da rua...”
Detesto a palavra féretro, eu disse, interrompendo, sem olhar para a possível viúva.
Eu também, mas é praxe, ela respondeu.
Praxe? Pô, até que ela tem uma linguagem legal, pensei.
Continuei a ler o resto do texto:
“Comunicamos o falecimento de Hederaldo Gabriel dos Santos, conhecido como Aldo Garanhão...”
Garanhão?
Ele era mais conhecido pelo apelido, disse ela, contendo um riso curto.
O tom da sua voz era um tanto malicioso para uma viúva nova.
Era seu marido?
Mais ou menos, respondeu, novamente com a voz maliciosa.
Tudo bem, eu vou fazer a leitura da primeira chamada agora mesmo.
Eu posso ficar aqui dentro, ouvindo?
Claro, não tem problema.
Na hora certa comecei a ler o texto com voz comedida e séria como convém em anúncios de falecimento. Apenas diminui o tom na palavra féretro que, particularmente, eu detesto. Ela choramingou, baixinho, durante a leitura.
Acabei de ler a mensagem e coloquei um samba do Zeca Pagodinho. Ela saiu do estúdio, enxugando lágrimas quase invisíveis, depois de despedir-se educadamente.
O senhor poderia ler mais uma cinco vezes hoje? Amanhã eu acerto o valor na secretaria da rádio.
Tive a impressão de que ela saiu rebolando a sua bela bunda, como se estivesse acompanhando, discretamente, o ritmo delicioso do samba. O tédio de um domingo faz a gente imaginar coisas.
Cinco vezes?
Pô, féretro é uma palavra desgraçada.

1 Comments:
Emfim um POST!
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