M.
Madame Blath, mecenas incorrigível, sempre teve um faro incrível para descobrir novos talentos nas artes visuais. Além de lançá-los, ela conseguia a façanha de vender as suas obras num mercado recessivo e sempre fechado aos artistas “novos”. Foi o que aconteceu com o pintor de cadáveres nada ilustres.
O pintor, que assinava simplesmente utilizando uma letra M e um ponto negro, pintava os seus quadros na madrugada, depois de corromper os vigias do necrotério, onde os corpos dos indigentes aguardavam um destino cruel. Uma vala comum ou a Faculdade de Medicina.
“Vou imortalizá-los”, dizia o pintor, em transe, enquanto retratava os mortos anônimos como se estivesse cumprindo um juramento maldito.
Dizem que quando Madame Blath morreu, o pintor, seu protegido, invadiu o velório e fez o retrato dela em questão de minutos. Um marchand, presente à cerimônia fúnebre, não hesitou em comprar a obra no mesmo instante.
“A arte, como a morte, não tem hora”, teria dito o comerciante.

1 Comments:
Muito bom Magela!
PS: Coloquei um linki no canto direito do meu blog do seu blog.
Abraço!
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